segunda-feira, novembro 07, 2005

O pomo da discórdia. Para quando, Páris, o julgamento?

Qual Étis lançando para o meio do salão a maçã de ouro vi os meus três queridos companheiros lançarem-se de unhas e dentes ao tema que eu lancei. Devo confessar a imensa felicidade que isso me trouxe, bem como os comentários que os nossos leitores foram deixando.

Durante estes dias li atentamente os post's deixados pelos meus colegas que se transformaram em autêntico debate na sequência do post original que deixei sobre a temática- o que é ser homossexual? Agora não posso mais adiar o comentário que tenho a fazer ao meu próprio post e a tudo o que ele gerou.

Foi muito cedo que me apercebi da minha orientação sexual e é há muito tempo que não só vivo confortavelmente com ela como a cultivo. O contacto, no entanto, com o mundo heterossexual, fez-me aperceber de que independentemente de homo ou heterossexuais homens são homens. E é isso que define a homossexualidade: o mundo homossexual é um mundo masculino- dos homens, pelos homens e para os homens (para que não surjam dúvidas e não me atirem pedras, neste post sempre que usar o conceito de homossexualidade quero significar homossexualidade masculina)! A masculinidade como essência do mundo gay pode, como alertou a Supeira no seu post "Nós Homens", parecer estranha ao olhar mais desatento e sobretudo àquele mais preconceituoso que pensa que todos os gays querem ser mulheres. Mas, e como já disse acima, a verdade mantém-se- mesmo a bicha mais bicha é ainda um homem (tirando aquelas como a Roberta Close que "tão fora, cortaram" ou o Conde de White-Castell que tem como único substantivo descritivo "ser")! Mesmo nos espetáculos de travestismo assistimos a essa masculinidade. O travesti importa elementos do mundo feminino (ou tidos como sobretudo femininos)- a elegência, o glamour- e importa-os para o seu mundo homossexual, pois é óbvio que a libido que caracteriza os espetáculos de transformismo é tudo menos feminina.

E aqui aproveito para passar a um outro ponto: _Yorn_ diz no seu Post "Cheguei" " Para mim, ser homossexual é igual a ser heterossexual...Com a única diferença que aqui temos mais pontos contra do que a favor.". Estou em desacordo, da mesma maneira que não concordo com o argumento que diz que a única diferença é quem levamos para a cama. É verdade que a palavra homos em grego clássico significa- o mesmo, mas é também verdade que se a palavra homossexual significa individuo que tem relações sexuais com outros indivíduos do mesmo sexo o conceito homossexualidade é várias vezes mais abrangente. Diz Leigh Rutledge no seu livro Gay Friends: "Ultimately, one's explanation depends on whether one's primary outlook is sociological, psychoanalytic, spiritual or biological" (Em último caso a explicação depende se a abordagem primitiva for sociológica, psicoanalítica, espiritual ou biológica). Assim, e na minha maneira de ver as coisas, a homossexualidade nunca pode ser definida como um fenómeno individual, mas deve sim ser olhada como um fenómeno social. De resto, é latente que quando falamos de casamentos homossexuais ou adopção de crianças por casais homossexuais o conceito é tudo menos sexual. Trata-se, isso sim, de uma questão social. Aliás, como o _Yorn_ bem notou no post "Cheguei"é uma luta pelo que "muitos consideram utópico em Portugal: ser-se um cidadão com plenos direitos/deveres, como outro qualquer, independentemente da sua sexualidade.".

Assim, não podia estar mais em desacordo quando chic-insanne diz no post "Para que não haja confusões..." que a sexualidade é um pormenor e não o todo. Dispenso aqui as explicações psicológicas e psicoanalíticas que o tyler descreve no seu comentário a este mesmo post. A verdade é que, uma vez que a homossexualidade é um fenómeno social, as suas características são as características de quem a faz- e quem faz a homossexualidade são os homossexuais! Logo, a homossexualidade reveste-se de libido, sexualidade e promiscuidade que são características masculinas. E concordo perfeitamente com a Supeira no post "Post às claras" quando afirma que estas não são características negativas. São as nossas. E aqui aproveito para as explicar pegando num argumento usado pela Supeira no mesmo post. Da mesma maneira que a mulher vê o sexo duma maneira diferente, mais ligada ao compromisso, o homem vê-o da maneira oposta pelas razões necessariamente opostas- nós não engravidamos (a menos se formos o tio Arnold que é chic desde que virou governador da Califórnia)! Este factor é adensado no mundo gay pelo factor proibição. Como a homossexualidade foi proibida desde o dealbar da cultura judaico-cristã as relações intermitentes de carácter apenas sexual tornaram-se as mais normais entre os gays uma vez que não deixam marcas e não são visíveis socialmente (e digo visíveis literalmente pois sabemos todos disfarçar a nossa chegada de um encontro amoroso quando estamos à porta de casa frente aos pais).Não quer dizer que não haja relações homossexuais duradouras, não quer dizer que os gays não pensem em assentar arraiais ou em ter filhos. Há os gays que o fazem. No entanto, a verdade é que tantos séculos de negação deixaram marcas no irracional homossexual. E assim, as nossas relações e as nossas vidas são diferentes em muitos aspectos das dos heterossexuais. De resto, não acredito como a Supeira na monogâmia. Veja-se para mais explicações Queer as Folk série 2 episódio 6 e série 4 episódio 3.

Quero ainda chamar a atenção para o facto de que há obviamente excepções, situações marginais, etc. É óbvio também que acabei, ainda que contra vontade, por usar alguns clichés. Defeitos da escrita- isto é um blog não um ensaio científico sobre a questão.

Deixo-vos por fim, amigos, as palavras de Rutledge no livro já citado: I have no doubt that heterosexuals have firm, committed, lifelong friendships, but those friendships rarely seem to embrace the same kind of generosity erotic pragmatism, and physical and emotional intimacy of gay friendships ( Não tenho dúvidas que os heterossexuais têm amizades firmes, comprometidas e que duram toda uma vida, mas essas amizades raramente parecem alcançar o mesmo tipo de generosidade, pragmatismo erótico e uma intimidade física e emocional das amizades gays).

4 Comments:

At 07 novembro, 2005 21:31, Blogger colher de chá said...

Já sou leitora assídua. Já sou fã incondicional.
Este blog... é um encanto.

Qt a este post em particular:
meu querido ArchDuke, conseguiste condensar da melhor forma o suficiente para q seja um orgulho poder ler-te e mais: para q seja um orgulho respeitar-te como és, pelo q és, com td o q tens.
Parabéns.
Gosto mt de ti* Beijos

 
At 07 novembro, 2005 22:03, Blogger Lord_Nelson said...

Belos argumentos. Cabe a cada um agora sua visão. A minha visão é que cada um é como cada qual, todos nós devemos ter liberdade. Liberdade para as nossas escolhas. Infelizmente ainda hoje em dia não se tem uma liberdade social total em relação à homosexualidade. Sou heterosexual mas sei bem da discriminação que se faz ainda hoje em dia. Felizes sejam aqueles que são fortes para serem como querem, apesar do nosso mundo.

 
At 08 novembro, 2005 17:27, Anonymous Anónimo said...

Voltemos atrás e vejamos o que a história nos ensina:
"Os gregos consideravam que os homens respondem, em momentos diferentes, a estímulos homossexuais e heterossexuais, ou seja, tinham consciência de que os indivíduos têm preferências sexuais, mas sequer as categorizavam." - Paulo César Coutinho.
Quando aprenderão a olhar para a história de maneira diferente? Relembra-me um poema que uma vez escrevi :

Órfeu

Tanta máscara que estou a ver,
Tantas pessoas que deixam de ser,
Apenas para satisfazer,
Por causa de um parecer,
Que possam fazer.

Tanto ódio, quando podia simplesmente haver amor,
Deixando de lado a dor,
Que é de ter de finjir por causa do superior.
Tanta falsidade por causa
De uma medíocre sociedade,
Que não permite que a verdade,
Venha ao que é ideal.

Tanta guerra,
Tanto ódio,
Tanta discriminação
Por causa da razão,
Que teima em abafar o coração.

Ah, ambígua e ilusória liberdade,
Defendida pela democracia,
Que tem como base a hipocrisia.
Tanta gente maltratada,
Que simplesmente se vê abafada.
Tanta gente mutilada,
Quando simplesmente queria ver-se amada.

Impregnam sanções,
Aos que tem corações,
E chamam de repugnantes,
Aos que tem comportamentos desviantes.

Mas quem somos nós para julgar,
Quando está em causa o amar,
E consequentemente o partilhar?

Quem somos nós perante Minos?
Quem somos nós para julgar?
Sabes que mais? Estou-me a cagar,
Para o que possas julgar!

Sem mais, um grande abraço

Tigax

 
At 08 novembro, 2005 21:17, Blogger Filipe Gouveia de Freitas said...

Meu querido Tigax,
Desde já o meu muito obrigado- tanto pela resposta, como pelo lindissimo poema!
Apesar das palavras de Paulo César Coutinho (autor que, confesso, desconheço) as coisas não eram assim tão lineares. Os gregos não tinham uma homossexualidade tão absoluta e permitida como os recentes, e se me permitem gloriosos, "queer studies" pretendem. Havia regras bastante restritas e a fuga a essas regras era punida com a morte. De resto, as palavras do autor que cita parecem-me descontextualizadas- a noção de sexualidade no mundo antigo é muito diferente. A não-categorização não implica uma visão mais aberta ou permissiva, mas simplesmente uma desnecessidade de o fazer. Entenda, por favor, que de todo em todo quero estar aqui a dar lições, mas este é um tema que me é caro e ao qual tenho dedicado algum estudo. Assim, o seu comentário chamou-me a atenção- se quiser terei todo o gosto em debater este tema consigo.
Deixo-lhe um abraço e em jeito de post-scriptum uma pergunta- porque chamou Orpheu ao seu poema?

 

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