sexta-feira, novembro 18, 2005

Encantos de uma mesa de jantar ou Orgulho de nós

Aquela mesa amanhecida pelo sol que inundava a sala vindo da varanda abriu o meu Domingo. A visão de uma mesa largada depois de uma refeição foi sempre muito agradável para mim. Enquanto resta para ali deixada pela preguiça d’alguém sobram as memórias, os encantos- acima de tudo as palavras.
Chiquinha Gonzaga alegremente toca o seu delicioso piano (comodidades do mundo moderno). As bocas inundam-se da multidão de aromas delicadamente cozinhados pelas mãos experientes de quem encontra arte no acto de comer. Levamos aos lábios os copos cheios e ficam entretanto os sorrisos e as gargalhadas numa espera compulsiva pela sobremesa- clímax da refeição. Trocam-se ideias, discutimos- fala-se de orgulho. Afinal temos orgulho em quê?
Temos orgulho em nós, na delicadeza dos nossos corpos jovens e ainda por amadurecer, nossa constituição de barro mole, como se as mãos de Apolo nos tivessem criado ainda há pouco, mas num molde já tão definido. Temos orgulho da vida, da leveza com que a gozamos, da seriedade que lhe oferecemos, do encanto que ela nos trás. E é tudo fugaz, qual valsa de Strauss dançada por graça uma vez na praça do Burgtheater- a música.
Enquanto, as memórias transbordam dessa mesa manchada de nós que abriu o meu Domingo.

3 Comments:

At 18 novembro, 2005 22:20, Blogger Lord_Nelson said...

Temos orgulho do nosso corpo de barro! É corpo de barro mole para se malear, para se adaptar aos obstaculos e dificuldades. Depois o barro tornar-se-a mais rigido, mais firme na sua consistencia... mais maduro. E não acho que a nossa vida seja sempre uma valsa. Há momentos que são nocturnos de Chopin.

 
At 18 novembro, 2005 23:57, Blogger Filipe Gouveia de Freitas said...

Meu querido,
Ainda bem que gostou. Eu não acho que a vida seja uma valsa- aquele momento foi como uma valsa. De resto, podem ser sombrios, mas que delicia deixar-se levar num nocturne de Chopin.
Apareça sempre!

 
At 19 novembro, 2005 00:25, Blogger Unknown said...

Meu amigo...
Palavras para que se mais vale o meu silêncio consentir essa memória tão linda. Tão nossa ...
Ainda sinto o cheiro a barro, espero que o oleiro continue a fazer brotar das suas mãos peças tão lindas como tu e os nossos outros.
Que estas memórias figurem nos postais das nossas lembranças no eterno entardecer enquanto as folhas de outono caem estrada fora.

 

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